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Scroll infinito ou desejo infinito?

  • Foto do escritor: Bianca Piazza
    Bianca Piazza
  • 8 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

Uma texto para quem se vê hipnotizado pela tela e prefere pensar antes de simplesmente desligar.


É meia-noite. O corpo cansado ensaia fechar o aplicativo, mas o polegar antecipa a vontade e desliza mais uma vez. Lá embaixo não existe “fim de página”: o feed se regenera como uma esteira infinita de mini-novidades. Não é à toa que quase metade dos adolescentes norte-americanos diz estar “online o tempo todo” — 46 %, segundo a mais recente pesquisa do Pew Research Center. No Brasil, somos ainda mais radicais: nove horas e treze minutos de tela por dia, em média, segundo levantamento de 2025 sobre tempo de tela em dez países, perdendo apenas para a África do Sul. A rolagem sem fim naturaliza algo que, do ponto de vista psíquico, é tudo menos natural: a ideia de que o desejo não tem intervalo.


O truque da novidade que se repete


A mecânica do infinite scroll foi criada para poupar cliques, mas logo se revelou um motor de permanência nas redes sociais. Cada puxada de feed oferece a promessa de um conteúdo “novo”, enquanto o algoritmo aprende nosso gosto e espelha mais do mesmo. O resultado é um circuito paradoxal: buscamos frescor e recebemos repetição. Freud descreveu esse curto-circuito há mais de um século, quando contrastou o Princípio do Prazer (a descarga rápida da tensão) com a Compulsão à Repetição, força que nos faz refazer experiências mesmo quando elas já não trazem prazer. A rolagem infinita é a tradução digital desse retorno do mesmo: um gesto tão fácil que prescinde de consciência — e justamente por isso insiste.

Que “gozo” há nesse movimento? Diferente do prazer simples, o gozo freudiano é dispendioso: satisfaz e fere, dá alívio e devolve inquietação. A micro-recompensa do like libera dopamina; a queda que se segue cria a fome pelo próximo estímulo, e o ciclo recomeça. O dispositivo se encaixa numa lógica pulsional: cada deslize promete completar o vazio produzido pelo deslize anterior.


Desejo, demanda e algoritmo


Na clínica, distinguimos a queixa da demanda. A queixa é explícita: “quero mais vídeos curtos”, “quero companhia”. A demanda é menos transparente: quer, na verdade, continuar a desejar. Plataformas capitalizam esse hiato, convertendo desejo em dado e dado em tempo de exposição. O algoritmo aprende a oferecer “coisas que talvez você ame”, traduz isso como mais do mesmo e empurra para dentro do túnel do scroll. O sujeito se vê numa situação de “cobaia-e-cliente”: fornece o dado, paga com a própria atenção e ainda agradece a mão invisível que lhe serve a dose.

A promessa, porém, nunca se cumpre. Assim como o sonho freudiano encena um cumprimento de desejo que adia o despertar, o feed encena um encontro com “o post perfeito” que jamais chega. Quanto mais o sujeito rola, mais se afasta do ponto em que a curiosidade poderia, quem sabe, se saciar.


Quando o tempo lógico se desmancha


Lacan falava num tempo lógico composto por três momentos: olhar, compreender, concluir. O infinite scroll encurta o segundo estágio — compreender — a quase nada. Pulamos do olhar ao próximo olhar, anulando a pausa reflexiva que permitiria metabolizar a experiência. Não espanta que estudos recentes associem o excesso de tempo de tela a piora de indicadores de saúde mental em adolescentes, com ênfase para o aumento nos diagnósticos de ansiedade e depressão. Ou seja, é nessa economia da atenção que se converte o tempo interior em tempo de produção de cliques.


Entre o espelho e o vazio


Existe, contudo, um ganho simbólico na rolagem. Falo sobre algo que toca o narcisismo de grupo. Ver-se refletido nos memes ou trends do momento dá a sensação de pertencer, de partilhar um idioma comum. O problema é que espelhos demais podem causar cegueira. O scroll contínuo constrói um corredor de reflexos por onde o sujeito se coloca a caminhar, e nessa caminhada com horizonte permanente a alteridade se esvai: só permanecem versões ligeiramente retocadas do próprio eu. É a solidão algorítmica: companhia sem presença, diálogo sem alteridade.


Uma pergunta que não cabe no feed


“O que você continua procurando quando desliza?” — perguntei no Instagram. No consultório, a pergunta se torna: que falta produz tanto ruído? Ouso em supor uma resposta que conversa com o meu texto, e portanto nessa linha, penso que talvez falte o intervalo, o espaço entre um post e outro onde o sujeito poderia ouvir seu próprio silêncio. Pausar, para poder, depois de tanto olhar, compreender algo antes de concluir. Deslogar não resolve tudo; às vezes apenas alimenta a fantasia de que a culpada é a máquina.

Contudo, escolher parar — ainda que por instantes — reintroduz a ordem do tempo lógico: olhar, compreender, concluir. Essa escolha é uma nova ação. O movimento que rompe o feitiço do scroll pode ser o mesmo que abre um livro, escreve num caderno ou apenas abre espaço para suspender a queixa.

No fim, a questão não é moral; é clínica e política. Clínica, porque diz respeito ao modo como cada um lida com seu vazio. Política, porque a engenharia do desejo hoje se faz em linhas de código que poucos leem, mas todos executam com o polegar. Entre o prazer rápido e a repetição compulsiva há um intervalo onde o sujeito pode, quem sabe, escolher.


E você — o que busca quando atualiza o feed?

 
 
 

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