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Quando a linha da dor se quer reta

  • Foto do escritor: Bianca Piazza
    Bianca Piazza
  • 15 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Esse texto se destina a quem desconfia de atalhos muito lisos.


Há algo de elegante na linha reta: começa num ponto, termina noutro, não hesita. Um comprimido promete justamente isso — encurtar o trajeto sinuoso entre o sintoma e o alívio. Não surpreende, então, que o consumo de antidepressivos e ansiolíticos tenha subido 18,6 % no Brasil entre agosto de 2022 e agosto de 2024, segundo levantamento do Conselho Federal de Farmácia. Porém, enquanto esse número sobe, o discurso público oscila entre dois extremos igualmente simplificadores: a demonização da química em um polo ou a fé cega na pílula como régua moral no outro. Ambos ignoram a geometria íntima do sofrimento.


A curva do sintoma


Na clínica, o sintoma raramente avança em linha reta; ele se enrola como fio que perde o rumo, dobra sobre si, às vezes forma nós. Essa torção é o modo como a psique transforma um impasse em mensagem — ainda que encriptada. Freud comparava o sintoma a um hieróglifo: sua leitura não tem tradução simples, mas acontece pelo trabalho de interpretação. Tomar medicação sem escuta pode transformar o hieróglifo em glifo apagado: a dor silencia, o enigma permanece, pronto para reaparecer em nova dobra.

Há, claro, situações em que o comprimido endireita a linha a tempo de evitar um abismo — crise aguda, melancolia paralisante, psicose em floração. A psiquiatria é, nesses casos, aliada indispensável. Mas quando a prescrição vira regra de bolso para toda tristeza, corre-se o risco de reduzir a paisagem subjetiva a um traçado minimalista: sem desníveis, sem relevo, sem margem para a pergunta sobre o que a dor quer dizer.


Da régua biomédica ao desvio necessário


A cultura contemporânea cultiva horror à imperfeição: linhas tortas viram defeitos a corrigir, quando talvez sejam apenas topografia do caminho próprio. Fármacos entram como régua que promete alinhar tudo pelo prumo da produtividade. A propaganda é sedutora: “Retome sua vida em sete dias”, “Volte a ser quem você era”. Quem garante que o sujeito queira, ou deva, voltar ao mesmo lugar? A crise, muitas vezes, inaugura uma curva decisiva — faz ver um excesso de trabalho, um casamento estagnado, uma fantasia que não cabe mais. Se a química devolve o funcionamento sem interrogá-lo, o risco é o de “consertar” o indivíduo para que ele se encaixe de novo no que antes o adoecia.

Não se trata de defender o sofrimento como via-sacra ou fustigar quem encontra alívio num frasco. A questão é outra: qual espaço resta para que o torto fale, antes que a necessidade pela retidão o silencie? A pressa medicamentosa pode entortar a linha de outro jeito: cria dependência, rebaixa a tolerância à frustração, terceiriza ao médico — ou à bula — a função de traduzir a própria vida.


Linhas que se tocam


Um outro ponto que julgo pertinente trabalhar aqui é um outro perigo do pragmatismo químico — a homogeneização de subjetividades. O que quero dizer com isso? Penso que se toda curva é corrigida, desenha-se um horizonte de indivíduos retificados, docilizados no sentido da constância do ritmo. O mundo, porém, precisa de linhas múltiplas: algumas se encontram, outras divergem, muitas se cruzam construindo trama social. A pluralidade dos trajetos garante que a cultura avance por ondulações, não por retas paralelas que jamais se tocam.

Há quem proponha, em vez da régua, a régua flexível: o medicamento entra como suporte temporário, não como linha mestra. Enquanto a química sustenta, a palavra trabalha. Winnicott chamaria essa interseção de “ambiente suficientemente bom”: remédio e escuta, corpo e discurso, bioquímica e biografia. Nenhum componente exclui o outro; ao contrário, previne-o de virar dogma.


Convite ao traço próprio


Se a farmácia promete linha reta, a psicanálise convida a explorar o rabisco. Não há roteiro padronizado, tampouco alta concluída com carimbo. Cada análise é tentativa de redesenhar o mapa com a mão do sujeito — mão que treme, borra, apaga, reinscreve. A medicação pode — e muitas vezes deve — acompanhar o processo, desde que não se confunda bússola com destino.

Antes de buscar o próximo ajuste de dose, talvez valha a pergunta: qual curva minha história desenha que o remédio tenta apagar? Nem toda linha torta é patológica; algumas apontam saídas que o olhar ansioso não viu. Quero lembrar que Pathos, em grego, significa exatamente afeto, experiência. Silenciar todo pathos seria, em última instância, amputar um pedaço de humanidade.

Uma sociedade que mede felicidade pelo ângulo reto perde a chance de aprender com o zigue-zague. E isso me faz pensar que entre o comprimido que alinha e a palavra que torce, existe um espaço de criação possível. Talvez ali resida a melhor terapia: permitir-se desviar o suficiente para descobrir onde, afinal, essa linha quer chegar.

 
 
 

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